| Bakary Kante, diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente |
Nós temos que colocar um preço nos serviços oferecidos pela Natureza”. Esse é o pensamento do senegalês Bakary Kante, diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um dos conferencistas do I Simpósio Internacional de Gestão Ambiental e Controle de Contas Públicas. O evento promovido pelo Instituto Rui Barbosa, Tribunal de Contas do Estado do Amazonas e Governo do Amazonas começa nesta terça (16) e segue até sexta-feira (19) em Manaus.
Para o diretor do PNUMA, ao garantir a sustentabilidade ambiental é garantida também a sobrevivência das pessoas. “Meu pai não tinha salário. Éramos em 12 irmãos. Então, como essas crianças cresceram com saúde? Graças aos serviços prestados pela Natureza”, afirma. E completou: “esse é o desafio: fazer com que todos entendam o quanto o ecossistema, a Natureza são importantes com a economia”. Confira abaixo entrevista completa de Bakary Kante concedida à Assessoria de Comunicação do Instituto Rui Barbosa (IRB).
Além de Bakary Kante, também estarão presentes especialistas como John McNeill, professor da Georgetown University, Nicholas Robinson, professor de Direito da Pace University, Parvez Hassan, ex-presidente da Comissão Mundial de Direito Ambiental, conselheiros de Tribunais de Contas europeus e ministros do STF, STJ e TCU.
O I Simpósio Internacional de Gestão Ambiental e Controle de Contas Públicas será aberto nesta terça-feira, 16, no Teatro Amazonas. As palestras serão realizadas de quarta a sexta-feira no Hotel Tropical. Mais informações no site www.simposiocontroleambiental.com.
IRB: Como o senhor vê a iniciativa dos Tribunais de Contas de promover um simpósio para debater as questões ambientais?
Bakary Kante: Eu acho que já está mais do que na hora de conceder um pouquinho do nosso tempo por tudo que a Natureza já fez por nós. Tudo que a Natureza dá para nós tem um preço. O ar, a água provêm serviços para a humanidade, para os governos, para a economia dos países. As pessoas acham que os recursos são abundantes, que não custam nada e por isso podem acabar com tudo. E isso não é verdade. Agindo dessa forma, podemos contribuir com uma catástrofe mundial. Eu agradeço pela iniciativa dos Tribunais de Contas. Com este simpósio, estão ajudando não só o Brasil, mas o mundo todo.
IRB: Como o senhor acha que os Tribunais de Contas podem contribuir com a preservação do Meio Ambiente?
Kante: Eu acho que a primeira coisa que devemos fazer é mostrar para todos que a Natureza provém muita riqueza para o País. E essa riqueza deve estar integrada às finanças nacionais. Quando os Ministérios da Fazenda entenderem o quanto isso é importante, eles serão mais responsáveis. Deixe-me contar minha própria história: até o ano passado eu jamais havia visto uma enfermeira. Meu pai não tinha salário, minha mãe não tinha salário e nós éramos em 12 irmãos. Então, como essas crianças cresceram com saúde? Graças aos serviços prestados por nosso ecossistema, graças à biodiversidade, graças à Natureza. Você sair e encontrar todos os remédios sem gastar nenhum centavo. Esse é o desafio: fazer com que todos entendam o quanto o ecossistema, a Natureza são importantes com a economia.
IRB: O senhor nasceu em Senegal. Há semelhanças entre os problemas ambientais que ocorrem na África e no Brasil?
Kante: Sim, definitivamente. O Brasil é o paraíso da Natureza. A Amazônia é algo imensurável. Lá também há maravilhas, como a Floresta do Congo. Nós perdemos muitas coisas pela estupidez e pela ganância. Eles destruíram muita coisa. Hoje existe desertificação por lá… tudo isso por não tomar conta do que a Natureza oferece para nós. Se continuarmos nesse ritmo, um dia nós teremos que comprar oxigênio para respirar. Mas aqui nós estamos dando um passo na outra direção. Nós temos que entender os desafios do Século XXI e aí sairemos lá fora para advogar e educar as pessoas para que vejam o que a Natureza faz por nós.
IRB: Na sua palestra, o senhor falará sobre os principais problemas ambientais no mundo. Existe uma solução para esses problemas?
Kante: Na minha palestra vou dizer – e acho que é um desafio para nós – que nós temos que colocar um preço nesses serviços oferecidos pela Natureza, leis regionais, nacionais e internacionais para garantir a sustentabilidade da produção e também dos serviços prestados pelo ecossistema. Portanto, meu tópico principal será sobre sustentabilidade. Como garantir a sustentabilidade para o povo da Amazônia? Definitivamente, não se pode mensurar pobreza com quantidade de dinheiro. Meu pai não era pobre. Nós tínhamos três refeições diárias. As pessoas aqui na Amazônia não são pobres. Eles têm remédios, eles têm comida suficiente lá fora para fazer três refeições diárias. Então você não pode medir pobreza com dinheiro.
IRB: Como então garantir essa sustentabilidade?
Kante: Eu acho que existe a necessidade de cobrar uma taxa justo pelos os bens e serviços fornecidos pela Natureza. Eu acredito que é errado tirar recursos do meio ambiente, fazer lucro e não pagar nenhuma taxa por isso. Essas taxas ajudariam a renovar esses recursos. Isso é sustentabilidade.



